Cirurgião de cabeça e pescoço, com funciona
Lembro-me bem de um paciente, o Sr. Joaquim, um marceneiro aposentado que chegou ao meu consultório com uma queixa que parecia banal: uma ferida na gengiva que não cicatrizava e um “pigarro” persistente. Ele acreditava que o problema era apenas uma prótese mal ajustada ou, quem sabe, o excesso de serragem que respirou a vida toda. O que Joaquim não sabia — e o que muitos ainda desconhecem — é que a boca não é um compartimento isolado; ela é a antessala de um sistema complexo que envolve a faringe, a laringe e todo o trato aerodigestivo superior.
A faringe é, essencialmente, um tubo muscular que serve de passagem tanto para o ar quanto para o alimento. Quando falamos em saúde bucal, não estamos tratando apenas de dentes brancos ou hálito fresco. Estamos falando da integridade da mucosa, o “revestimento” que começa nos lábios e segue até o esôfago. Quando essa barreira é negligenciada, o terreno torna-se fértil para o surgimento do carcinoma epidermoide, o tipo mais comum de câncer nessa região.
O elo invisível entre a gengiva e a garganta A ciência tem nos mostrado que a inflamação crônica é uma das grandes vilãs da oncologia. Imagine uma gengiva constantemente inflamada por falta de higiene adequada ou por dentes em mau estado. Esse estado de “alerta” constante do sistema imunológico, somado à presença de bactérias patogênicas, pode atuar como um coadjuvante perigoso para agentes carcinogênicos clássicos, como o tabaco e o álcool. No caso do Joaquim, a situação era um pouco mais complexa. Além do fumo, ele apresentava uma higiene oral precária.
Essa combinação cria um ambiente quimicamente agressivo para as células da faringe. É como se a mucosa estivesse sendo constantemente “bombardeada” e perdesse a capacidade de se regenerar corretamente, dando lugar a células malignas. Além disso, hoje não podemos ignorar o papel do HPV (Papilomavírus Humano), que encontrou na orofaringe um novo nicho e cuja porta de entrada, muitas vezes, é a própria cavidade oral. Quando o corpo começa a sussurrar (ou gritar) Um dos maiores desafios que enfrento como cirurgião de cabeça e pescoço é o diagnóstico tardio. O câncer de faringe é silencioso no início. Por isso, costumo dizer aos meus pacientes: o corpo sempre dá sinais, nós é que precisamos aprender a ouvir. Disfagia:
Aquela sensação de que o alimento “arranha” ou fica preso na garganta. Odofagia: Dor ao engolir, que muitas vezes é confundida com uma faringite comum que não passa. Linfonodos aumentados: O famoso “caroço” no pescoço, que geralmente não dói, mas que é um sinal de alerta clássico. Alterações na voz: Uma rouquidão que persiste por mais de duas semanas exige uma laringoscopia ou endoscopia de via aérea. Para diagnosticar o Joaquim, utilizamos uma combinação de exame clínico detalhado e uma nasofibrolaringoscopia — um exame rápido, feito no consultório com um tubo flexível e uma câmera, que nos permite visualizar a faringe “por dentro”. Infelizmente, a biópsia confirmou o que suspeitávamos: um tumor em estágio intermediário.